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quinta-feira, 13 de junho de 2013

Boa viagem.

         Seu amor resumia-se ao descompasso de seu coração, arrítmico, levando-o a perguntar onde se encontrava o amor que julgara sentir um dia por seus pais, irmãos, mulher e filhos... Desparecera, escondera-se ou tudo fora uma ilusão em que travestia todo o seu egocentrismo em imagens românticas e poéticas?
             O momento definitivo e inevitável, tão distante de todos, até considerado uma irrealidade, ─ à espreita do derradeiro fluxo de sangue nos vasos, veias e artérias ─ aproximava-se sorrateiro e inexorável na tarde que desmaiava no horizonte emoldurado pela janela aberta do quarto.
            Seu coração saltava no peito agitado pela respiração, emprestando-lhe esperança na continuidade da vida. Ao qual se agarrava tenazmente como se aquele corpo fosse toda sua herança. Mas que corpo ─ refletia em alguma janela de consciência que se abria eventualmente ─ se logo mais seria pasto de vermes, inútil, repugnante, desaparecendo nas águas do tempo...
           Pobre José, prisioneiro de seu umbigo, definhava-se no leito, mergulhado na gélida atmosfera de terror que o sufocava.
          José, José, cadê sua fé, aquela mesma cultivada em tantas manhãs dominicais na paróquia local? Pense nos santos e anjos do paraíso ou pelo menos dê exemplo de coragem, eternizando esses últimos momentos em gratas lembranças dos que o assistem!
         Não? Ainda prossegue amando exclusivamente seu coração?
         Pense então que a vida é gratuita, que você nada fez para merecê-la, logo não lhe pertence...
         Não? Ainda anseia pela vida, por permanecer nesses sítios tão bem conhecidos?
         José, logo mais se abrirá pra você horizontes nunca antes sequer pressentidos em sua incomensurável beleza, amplos em oportunidades reais de felicidade! A vida é eterna.     Então? Serenou seu espírito?
         Se garanto?
         Sim, José!
         Não precisa agradecer-me, José. Boa viagem e seja feliz...
                                                                                           Texto de Rogerio Sansevero.

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